Ao contrário do que você pensa, este não é um texto de abaixo o coitadismo. Mas também não é um texto pró. É apenas um texto sobre mim.
Dizem por aí que o coitadismo é a síndrome de "sempre eu", "pobre de mim", "nada dá certo comigo"... Mas o buraco é muito mais embaixo, meu senhor. Sou uma coitadista convicta, e não por achar bonito, apenas por reconhecer que eu tenho a tendência de sentir pena de mim mesma e de me lamentar. Mas acontece que os fatos da minha vida falam por si só. Pelo menos pra mim.
Durante toda a minha vida eu me senti um ser humano inferior. Nada do que eu fazia era elogiado pelos meus pais, parentes ou professores. Eu nunca achei que tivesse algum talento. Sempre fui uma aluna mediana (aquela que tira nota baixa em exatas, fica de recuperação, se mata de estudar e passa com a média raspando no final). Nunca fui a mais bonita e, pra ajudar, sempre fui gorda, em uma sociedade totalmente preconceituosa.
As pessoas passaram a minha adolescência inteira inventando métodos para me “dar de presente” tratamentos para emagrecer, disfarçando o preconceito em preocupação com a minha saúde física. Isso degradou a minha saúde emocional, mas nunca vi ninguém se preocupar em me dar tratamentos para isso. Nem apoio. Nem carinho. Nem diálogo.
Pelo contrário. A minha depressão nunca foi compreendida nem aceita. Recebi apelidos gozadores, fui taxada de preguiçosa, vivi momentos de verdadeiro inferno emocional por pressão com coisas como “você não lavou a louça e isso faz de você a pessoa mais preguiçosa e descomprometida do mundo”.
Sempre tive a visão clara de que a minha família me amava pelos laços sanguíneos, mas que não gostavam de mim como pessoa. Nunca fui a companhia ideal de ninguém, nunca fui a melhor amiga de ninguém nem a pessoa preferida de ninguém. Milhares de vezes testemunhei minhas primas serem mais próximas da minha mãe do que minhas. E o que tem de mal nisso? Nada! Espere até o seu melhor amigo começar a namorar a sua mãe que você vai me entender. É uma sensação de troca, de que alguma coisa está errada ali, de que alguma coisa está errada com você.
Isso sem mencionar a “mundana”, distante de Deus, não convertida que eu sempre fui aos olhos da minha família (constituída por muitos, muitos crentes). O fato de eu ser contida nas minhas expressões (gerais, não apenas de fé) deu aos crentes o direito de me julgar. Contraditório, né? Mas foi assim mesmo. “Marcela, vou te mandar um versículo por dia” “Não precisa, eu tenho aplicativos pra isso e também sei abrir a Bíblia” “Ah, mas eu vou mandar” (afinal a minha fé é muito maior do que a sua – fica subentendido, né?)... E vai dispensar pra você ver só. "Marcela, senti um desejo enorme de orar por você" (porque você é uma pobre alma perdida que precisa de muita oração, fia - fica subentendido de novo).
Muitas vezes me senti inferiorizada diante de outras pessoas. Sabe aquela velha historinha conhecida de todo mundo? “Mão compra uma bolacha pra mim?” “Não”, aí o seu irmão pede e ela compra. E assim eu fui crescendo, com conflitos cada vez maiores e mais profundos, muito além de um pacote de bolachas.
Os meus conflitos sempre foram vistos pelos outros como superficiais, sem importância ou infundados. E o menosprezo foi, mais uma vez, entranhando na minha mente e na minha alma toda a minha pequenez diante do mundo. Como alguém não vai ser coitadista desse jeito, minha gente? É uma questão de enxergar que você nunca tem valor nem importância e sentir pena de si mesmo, siiiiiim! E por que não? Até por ser coitadista a gente acaba sendo julgado de coitadista, meu Deus, é um ciclo sem fim.
Não sei pelas minhas experiências ou se por ser um traço da minha personalidade mesmo, mas fui me sentindo cada vez mais uma coitadinha. Cheguei ao ponto de sentir pena de mim mesma. Sempre soube que as pessoas detestam a autopiedade, mas liguei o foda-se pra isso e dei vasão aos meus sentimentos e impressões.
Existe uma graaaaaande diferença entre se fazer de vítima e não buscar melhorar as coisas e apenas reconhecer fatos. Eu reconheço todos os fatos desgraçados sobre a minha vida. E mesmo sendo tudo o que eu falei aí em cima, eu nunca deixei de correr atrás. Fiz faculdade, fiz pós-graduação, me esforcei pra caramba. Fiz terapia, fiz psicanálise, tomei remédio, fiz exercício e nada adiantou. Não consegui bosta nenhuma da vida, mas não fiquei parada chorando e implorando atenção de ninguém. Por isso é que eu saio do sério quando alguém vem com o famoso “você é muito coitadinha”... cara, eu sou mesmo. Literalmente.
PS: não precisa chacotar nem ter peninha de mim, o espelho já faz as duas coisas todas as manhãs.
Obrigada, de nada.
PS2: este texto não é um pedido por elogios disfarçado.
PS3: não sei como o gato aguenta 7 vidas, eu não to aguentando uma!
PS4: não precisam vir com o setembro amarelo comigo não, eu não tenho planos de me matar; pretendo ser sofredora (Maria do Bairro mode on) e reclamar disso por muito tempo ainda HAHAHA
PS4.1: leve o texto mais para o lado do humor do que para o lado da lamentação exatamente :P Apesar de que é. só que não é... bom, deixa pra lá!
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