Glória estava ansiosa. Ela sabia bem o motivo que lhe
causava um nó no estômago, aquele tipo de nó que não a deixara sequer comer
toda sua salada no almoço.
"Você está nervosa. Não pára de balançar essa
perna", comentou a colega de trabalho. Mas Glória não precisava ser
avisada de que estava esboçando seus sentimentos, ela fazia isso
conscientemente, ainda que contrariada.
Justo ela, que sempre tivera tanto autocontrole... se
mantivera firme nos três últimos dias, guardando só para si as sensações de
estar tão próxima de conhecer o resto de sua vida. Mas agora, na véspera,
Glória não estava mais cabendo dentro de si. Escreveu um post-it, um cartão, uma carta, um
texto, foi se sentindo extravasar, foi se aliviando.
Era estranho para ela se sentir assim. Era uma sensação
nova. Embora ja tivesse vivido coisas grandes, aquela lhe parecia ser de uma
dimensão bem maior. Dessa vez a sensação não vinha acompanhada de agulhadas no
coração, mas sim de um friozinho gostoso na espinha e de uma pressao simpática
na boca do estômago. Glória ria de si mesma ao notar que achava agradáveis os
sintomas de sua ansiedade. Aquele medinho do incerto misturado à expectativa
lhe faziam cócegas em lugares que nem sabia que existiam.
"Não crie muita expectativa, pro tombo não ser
alto", dizia a si mesma. Mas outra parte dela repetia que daria tudo
certo, que as coisas só não seriam perfeitas porque não existe nada perfeito.
Então ia se mantendo assim, na corda bamba das emoções, crendo no melhor, mas
lembrando-se de cogitar o pior. Assim se mantinha equilibrada. Quando se via
prestes a pirar, mentalizava o azul-calcinha, recitava o mantra
"tudovaidarcertoagoraesempreamem" e se focava no que havia idealizado
de mais lindo para o dia seguinte.

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