domingo, 4 de novembro de 2012

Pudim de Santo Cristo



Um torpedo enviado para o número errado ocasionou um diálogo sem grandes pretensões entre Maria Lúcia e Pablo. 

Ele respondeu a mensagem daquele número desconhecido dizendo que deveria ser engano, pois não fazia ideia de "quantas xícaras de açúcar eram necessárias para a calda dar liga". Maria Lucia deu risada de si mesma ao perceber que havia trocado o 3 pelo 6 ao tentar enviar o torpedo para a mãe.

Respondeu se desculpando pelo engano. Pablo achou engraçado e respondeu de novo, querendo saber se a calda era de pudim, porque ele amava pudim.

Maria Lucia disse que era pudim, sim, e que ele poderia aparecer para provar um pedaço como desculpas pelo engano. 

E foi assim que aconteceu. Trocaram torpedos durante toda aquela tarde de sábado e, a noite, e no domingo. E durante a semana inteira.

Maria Lucia já conseguia nutrir por Pablo um grande afeto, mesmo sem saber sequer de que cor eram os olhos dele. Pablo já tinha pensamentos maliciosos com Maria Lucia, mesmo sem saber se o cabelo dela era curto ou comprido.

E foi assim, interessada em talvez encontrar o grande amor da sua vida, que Maria Lucia foi se rendendo e entregando seu coração àquele desconhecido. E foi assim, interessado em mais uma transa, que Pablo foi deixando as coisas rolarem.

Os torpedos evoluíram para alguns telefonemas a noite e Maria Lucia tentou explicar a Pablo que ela não era exatamente como ele pensava. Ela tinha algumas peculiaridades que a faziam se sentir diferente e desmerecedora. Mas de tanto sua mãe dizer que ela era especial, que alguém muito legal ainda a amaria, Maria Lucia começou a acreditar em contos de fadas.

Pablo dizia que não se importava. Que já gostava dela, que gostaria mais e mais, independente de como ela fosse. Maria Lucia acreditou.

Pablo dizia que queria casar, ter 2 filhos. Maria Lucia também acreditou.

Marcaram o encontro. Ela caprichou no rímel, pensando que ele fosse reparar em seus profundos olhos castanhos. Ele comprou camisinhas.

Se encontraram em uma noite quente, na casa dela. Ela havia feito pudim, perfumado a sala, colocado flores. Ele reparou apenas no tamanho dos seios dela e nas curvas de sua cintura. Ele de fato notou as peculiaridades de que ela havia lhe falado, mas naquele momento não se importou; não queria perder a oportunidade que estava bem na sua frente de ter uma mulher que lhe satisfizesse as vontades carnais.

Se beijaram. Para ela foi terno. Para ele, quente. Ele tentou usar o corpo dela de todas as formas quanto podia. Ela se afastava. Ele foi embora cedo. Ela telefonou, mas não obteve resposta.

Pablo não era tão doce quanto ela pensava. Ele não gostava de gatos. Não gostava de crianças. Não gostava dela. Mesmo assim ela se lembrava que o beijo dele era bom, e isso a fazia sorrir.

E no dia seguinte, ainda inebriada pela felicidade de ter estado com ele, Maria Lucia telefonou de novo. Dessa vez ele atendeu. E depois de 2 minutos de conversas sem sentido, ele disse que "não rolava", as peculiaridades dela não serviam para ele.

Outra vez Maria Lucia via seu conto de fadas se desfazer. Mas desta vez ela se propôs a entender que a vida sempre seria assim. Ela era apenas Maria Lucia, a garota esquisita de quem ninguém nunca gostava. a unica forma de ela ser aceita, era dando ao mundo o que o mundo queria. Mas isso ela não estava disposta a fazer.

Pensou em pegar a winchester 22 e pedir que seu amigo João desse cabo de sua vida. Mas a vida era muito mais entediante do que as músicas, e Maria Lucia sabia disso. Trocou o número do celular para não precisar nunca mais correr o risco de esbarrar em torpedos ou ligações de Pablo. Continuou vivendo.

Maria Lucia descobriu que, para ela, a morte era que ela teria de passar a vida tendo que lidar com o amor. Aquela era, sem duvida, a morte mais dolorosa de todas. Pelo menos para uma alma como a dela.



Maria Lucia era uma menina linda. Mas ninguém lhe prometeu seu coração.*

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