O jogo de futebol passava na TV sem que ninguém prestasse atenção. Max estava perdido em seus pensamentos, tentando entender como o vazio podia ocupar tanto espaço.
Do outro lado da cidade Luisa olhava a lua pela janela, sem fazer ideia do que estava vendo. Olhava sem enxergar. A alma vagava longe. Os cabelos curtos agora estavam limpos, os olhos não traziam mais a maquiagem escura e borrada, mas continuavam carregados de tristeza.
No dia seguinte, independente da solidão que ambos sentiam, o sol nasceu. E no outro dia também. E no outro. E no outro.
Para Max, a vida havias e tornado um pouco mais amarga e escura, mas ele continuava acordando todas as manhãs. Trabalhava, ia para o curso de inglês, lia notícias na internet, conversava com a mãe pelo telefone. De vez em quando saía com os amigos, bebia um pouco, ficava com várias mulheres, sem apegos ou cobranças.
Os sonhos dele haviam ficado em algum lugar que ele não sabia onde. E não se importava mais em saber.
Para Luisa, a amargura de não conseguir viver seus anseios foi tornando tudo sombrio. Os sonhos dela, ela sabia muito bem onde estavam: guardados em uma caixa no armário, e ela não podia conviver com a dor de não realizá-los.
Aos poucos, sem se dar conta, Luisa foi morrendo. E dessa vez não era só por dentro. A angustia fazia com que seu corpo definhasse. As funções vitais já não correspondiam ao que a sobrevivência humana exigia. Sentiu seus olhos inevitavelmente pesados, a alma cansada pedia para ser livre, as articulações dos dedos endureciam e o frio começou a subir por seus pés.
Conseguiu, com esforço, andar até aquela sarjeta onde havia sido encontrada pelo rapaz que ela sequer sabia que se chamava Max. Ali, fraca e angustiada, caiu. Ficou deitada naquele mesmo lugar, encolhida, a tarde toda. A noite toda. E o outro dia também. E o outro. E o outro.
Luisa nunca mais acordou. Morreu de tristeza, esperando que Max viesse resgatá-la outra vez e para sempre. Ninguém sentiu sua falta. A famíia achou que, como Natasha , ela havia feito suas escolhas. E de fato havia. Luisa havia escolhido não mais viver. Não escolheu a morte, mas não a evitou.
E em uma quarta-feira normal e de sol, os bombeiros retiraram seu corpo da sarjeta quente, como uma ação habitual, sem que ninguém se abalasse com isso, e aquela garota sem nome foi enterrada como sempre havia se sentido: uma indigente. O Jornal Nacional não noticiou. Não fazia diferença. Um dia ela havia decidido se tornar apenas mais uma, e morrendo, se tornou.
Nunca mais Max veria aqueles olhos azuis de novo. O quebra cabeças iniciado na mesa da cozinha nunca seria terminado. A avó nunca mais a escutaria cantando junto com o rádio. Os filhos e os cachorros nunca existiriam. Os livros nunca seriam publicados. O mundo nunca conheceria o tudo que ela tinha a oferecer.
Porque Luisa não tinha como saber, mas sua vida poderia ter feito diferença se ela insistisse mais um pouco. Mas ela era humana e viver doía demais.
Max também podia fazer diferença. Mas agora ele seria para sempre incompleto, porque mesmo sem que ele soubesse, Luisa, sua metade, havia se perdido. No entanto, Max nunca seria capaz de entender. Para ele, seu pedaço que faltava se chamava Carol.
E assim se fez mais um desengano. E mais uma vez, o mundo perdeu a chance de mudar.
Porque as coisas são assim, os finais da vida não são felizes como os das novelas. Mas o final de Luisa acabou sendo mais feliz que o de Max. A morte a redimiu de seu sofrimento e a tornou livre, de verdade.

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