segunda-feira, 29 de outubro de 2012
domingo, 28 de outubro de 2012
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
E-stória - final
O jogo de futebol passava na TV sem que ninguém prestasse atenção. Max estava perdido em seus pensamentos, tentando entender como o vazio podia ocupar tanto espaço.
Do outro lado da cidade Luisa olhava a lua pela janela, sem fazer ideia do que estava vendo. Olhava sem enxergar. A alma vagava longe. Os cabelos curtos agora estavam limpos, os olhos não traziam mais a maquiagem escura e borrada, mas continuavam carregados de tristeza.
No dia seguinte, independente da solidão que ambos sentiam, o sol nasceu. E no outro dia também. E no outro. E no outro.
Para Max, a vida havias e tornado um pouco mais amarga e escura, mas ele continuava acordando todas as manhãs. Trabalhava, ia para o curso de inglês, lia notícias na internet, conversava com a mãe pelo telefone. De vez em quando saía com os amigos, bebia um pouco, ficava com várias mulheres, sem apegos ou cobranças.
Os sonhos dele haviam ficado em algum lugar que ele não sabia onde. E não se importava mais em saber.
Para Luisa, a amargura de não conseguir viver seus anseios foi tornando tudo sombrio. Os sonhos dela, ela sabia muito bem onde estavam: guardados em uma caixa no armário, e ela não podia conviver com a dor de não realizá-los.
Aos poucos, sem se dar conta, Luisa foi morrendo. E dessa vez não era só por dentro. A angustia fazia com que seu corpo definhasse. As funções vitais já não correspondiam ao que a sobrevivência humana exigia. Sentiu seus olhos inevitavelmente pesados, a alma cansada pedia para ser livre, as articulações dos dedos endureciam e o frio começou a subir por seus pés.
Conseguiu, com esforço, andar até aquela sarjeta onde havia sido encontrada pelo rapaz que ela sequer sabia que se chamava Max. Ali, fraca e angustiada, caiu. Ficou deitada naquele mesmo lugar, encolhida, a tarde toda. A noite toda. E o outro dia também. E o outro. E o outro.
Luisa nunca mais acordou. Morreu de tristeza, esperando que Max viesse resgatá-la outra vez e para sempre. Ninguém sentiu sua falta. A famíia achou que, como Natasha , ela havia feito suas escolhas. E de fato havia. Luisa havia escolhido não mais viver. Não escolheu a morte, mas não a evitou.
E em uma quarta-feira normal e de sol, os bombeiros retiraram seu corpo da sarjeta quente, como uma ação habitual, sem que ninguém se abalasse com isso, e aquela garota sem nome foi enterrada como sempre havia se sentido: uma indigente. O Jornal Nacional não noticiou. Não fazia diferença. Um dia ela havia decidido se tornar apenas mais uma, e morrendo, se tornou.
Nunca mais Max veria aqueles olhos azuis de novo. O quebra cabeças iniciado na mesa da cozinha nunca seria terminado. A avó nunca mais a escutaria cantando junto com o rádio. Os filhos e os cachorros nunca existiriam. Os livros nunca seriam publicados. O mundo nunca conheceria o tudo que ela tinha a oferecer.
Porque Luisa não tinha como saber, mas sua vida poderia ter feito diferença se ela insistisse mais um pouco. Mas ela era humana e viver doía demais.
Max também podia fazer diferença. Mas agora ele seria para sempre incompleto, porque mesmo sem que ele soubesse, Luisa, sua metade, havia se perdido. No entanto, Max nunca seria capaz de entender. Para ele, seu pedaço que faltava se chamava Carol.
E assim se fez mais um desengano. E mais uma vez, o mundo perdeu a chance de mudar.
Porque as coisas são assim, os finais da vida não são felizes como os das novelas. Mas o final de Luisa acabou sendo mais feliz que o de Max. A morte a redimiu de seu sofrimento e a tornou livre, de verdade.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
E-stória - parte III
Com os olhos ainda inchados variando entre a mão grande e forte estendida e o rosto de olhos castanhos que a encarava, iluminado pelo sol, Luísa tentou descobrir se estava morta, sonhando, tendo uma alucinação. Os sentimentos se confundiam ainda mais e as certezas eram coisas que ela já não possuia.
Mas ela não tinha mais nada a perder. Já havia enterrado seu coração. Então, segurou aquela mão estendida e se levantou. Deixou que ele a conduzisse sem sequer perguntar quem ele era ou para onde estavam indo. Estava rendida.
...
Max pensava estar morto, mas havia sobrevivido. Pelo menos seu corpo havia. No entanto, aquela alma que ele pensava estar morta havia se compadecido de Luísa, ali, corpo jovem e alma nitidamente decrépita. No momento em que a viu estendida na calçada quente e suja, Max entendeu uma frase que lera uns dias antes "as almas já combinaram o encontro muito antes dos corpos se verem".
E depois de tantas lutas de coração, Max e Luisa não sabiam, mas estavam bem diante de um presente da vida. Para cada um deles, o outro era uma dádiva. Mas nenhum dos dois podia ver isso. Quem haveria de culpá-los? A cegueira é um sintoma de quem se esforçou demais para ler as letras miúdas da vida.
Desta vez, a história seria diferente, e disso os dois sabiam. Não havia finais felizes para eles.
O toque da pele de ambos trazia uma sensação de calma misturada com alvoroço. Luisa seguia atrás de Max e a visão de seu cabelo castanho e curto e suas costas largas lhe causava vontade de sorrir. O barulho da respiração pausada dela atrás dele fazia com que Max se sentisse levemente seguro de novo. Mas mesmo diante da possibilidade inerente de felicidade, os dois, de mãos dadas e dedos entrelaçados, caminhando juntos pela rua movimentada, fizeram suas escolhas. Optaram por não se permitirem viver a experiência. Dela, o medo de sofrer de novo. Dele, a raiva pelo que já havia vivido.
A vida havia transformado aqueles corações em pedras, e nem mesmo o calor de uma nova possibilidade tão certa desenhada pela vida era capaz de derrete-los.
Max fez com quem Luisa se sentasse em uma praça, em um banco à sombra, ofereceu água, um lenço, chamou um taxi, pagou adiantado. E foi assim que Max, decididamente, mandou para longe a sua última oportunidade de ser feliz. E foi assim quem Luisa, rendida, deixou para trás sua última oportunidade de ser completa.
Não, não acabou. Amanhã, a parte final.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
E-stória - Parte II
Luísa havia acordado cansada. O peso dos dias começava a fazer diferença.
Passou a mão nos cabelos e se sentiu estranha. Nunca havia tido os cabelos tão curtos antes. As decisões do dia anterior começavam a perder o sentido.
Por quê mesmo havia resolvido se tornar outra pessoa? Será que aquilo tudo valia a pena? Será que abandonar toda sua essência só porque algumas pessoas não sabiam valorizá-la era mesmo o melhor?
E naquele dia nublado, Luísa começou a fazer o que fazia melhor: pensar. Começou a analisar a si mesma, as situações que vivia, as pessoas que conhecia e até as que não conhecia. Sentiu uma vontadezinha secreta de sorrir.
Não havia jeito. Mesmo tendo saído de mini saia na noite anterior, com o cabelo chanel pintado de vermelho cereja, salto alto e batom marcado, Luísa ainda se sentia a mesma menina doce, insegura, afetuosa. Mudar suas atitudes não mudava sua alma. Isso ela não conseguia fazer.
Então decidiu adotar outra estratégia: ela não precisava mudar de verdade. Bastava não deixar que ninguém soubesse o que se passava dentro dela. Não se expor. Não se envolver. Não se apegar.
Decidiu manter a pose. Limpou os olhos borrados de maquiagem e saiu. Tatuou uma frase que traduzia quem ela era e quem ela queria ser. O que nunca mudaria.
Sentou-se na calçada e percebeu que as lágrimas fariam os olhos borrarem de novo. Não se importou. Não se importava mais em causar boas impressões. Tentou entender se as lágrimas eram por causa da dor causada pela tatuagem ou pela dor de estar viva.
Ficou sentada ali a tarde toda. A noite toda. E o outro dia também. Quando olhou para cima, franziu a testa pronta para a sensação que o sol causaria em seus olhos, mas havia uma sombra. Um homem 10 vezes mais forte que ela, duas vezes maior e 10 anos mais velho estendia a mão para trazê-la de volta à vida.
Continua...
terça-feira, 23 de outubro de 2012
E-storia
Luísa era uma boa menina, como sua avó
costumava dizer. Não fumava, só bebia socialmente, nunca havia
experimentado drogas, sabia bordar, cozinhar, fazer vinco em camisa
social. Não ia para a balada de fim de semana, era amorosa, estudiosa e
trabalhadora. Lutava pelo que acreditava. Amava a Deus. Era o sonho de
qualquer mãe e o devaneio de qualquer marido.
Ansiava
ter uma família, cachorros, gatos, papagaio. Viajar para a praia de vez
em quando, mandar seus meninos pararem de jogar areia na irmãzinha.
Lia. Escrevia. Buscava. Orava. Cantava. Aprendia.
Gostava
de rir e de fazer rir. Nunca perdia uma piada. Quando gostava de
alguém, se doava. Era amiga, companheira, ouvinte, aconselhadora,
parede.
Como qualquer pessoa, tinha
defeitos. Um pouquinho ciumenta de vez em quando. Um pouquinho
esquecida. Um pouquinho desapegada demais. Um pouquinho preguiçosa.
Muito fora de forma. Nada modesta; sabia que seus defeitos não eram
capazes de apagar a luz que emanava de si e ocultar suas qualidades.
Mas
sempre há coisas na vida que a gente não consegue entender. E com Luísa
não era diferente; ela não compreendia porque seus sonhos pareciam cada
vez mais distantes. Não entendia como a vida funcionava. Estavam
totalmente fora de sua compreensão acontecimentos como o daquele dia.
Aquele dia... Ah, aquele dia! Luísa ainda se perguntava por que diabos
Deus permitia que ela conhecesse determinadas pessoas se não era para
dar certo.
E
naquele dia havia nascido dentro do peito dela, mais uma vez, aquela
esperança doce, que ela já sabia que morreria (ou seria friamente assassinada) alguns
dias depois, mas que mesmo assim ela resolveu deixar nascer mais uma
vez. "Dessa vez vai dar certo", ela pensou. Como havia pensado tantas
outras vezes.
E
mais uma vez, como de todas as outras, deu errado. Luísa se descobriu
sendo, de novo, a melhor amiga do que ela queria que fosse dela e só
dela. Isso sempre acontecia... o mal de ser uma boa menina era que ela
sempre era a pessoa procurada para ouvir e ajudar. Ela não ligava, até
gostava, desde que não precisasse ouvir e ajudar alguém a conquistar
exatamente aquilo que ela queria para si mesma.
Luísa
estava cansada. A vida já tinha passado tantas rasteiras... ela se perguntava se um dia pararia de cair. Então decidiu que, se aquele
caminho tinha tantas pedras, mudaria de caminho. Decidiu mudar de
postura. Cortou o cabelo, jogou fora as roupas comportadas, queimou os
papeis de carta.
Decidiu que seria mais uma, igual a tantas outras. Ser diferente não dava resultados...
PS: essa e-stória continua amanhã.
Quebra cabeças
Você consegue imaginar que uma mulher baixa, magra, de traços miúdos, voz doce e jeito inocente consiga matar um homem dez anos mais velho, duas vezes maior, e 10 vezes mais forte que ela sem portar facas, explosivos ou armas de fogo?
Carol matou Max. Em alguns minutos de conversa ela foi capaz de extinguir da face da terra um dos últimos exemplares de homem bacana que restavam.
Enquanto milhares de mulheres (e homens também, por que não?) pelo mundo passavam sua vida buscando um cara gentil, bonito, que mandasse torpedos de bom dia e ligasse inesperadamente no meio da tarde só para dizer oi, Carol pegava o coração de Max, amassava e atirava na lixeira mais próxima.
Ela, apaixonada por um canalha sem nome, encontrou nos braços de Max carinho, proteção, afeto. E não menos humana do que era, se rendeu. Viveu um dias, dois, um mês... Só que a forma de enfrentar estes dias era muito diferente no coração de Max.
Para ela, Max era apenas o que faltava em sua paixão sem nome. Para ele, Carol era muito mais do que ele jamais havia tido em toda a sua vida. Ela era a peça que encaixava no quebra cabeças dele. Já ele era apenas o manual de instruções do jogo dela, aquele que você lê e, depois que aprende a jogar, larga em um canto qualquer, e vai jogar milhares outros de jogos parecidos.
E foi assim que Max se deu conta de que não queria ser manual. Nem quebra cabeças. E depois de tanto afeto dedicado ao que ele imaginava ser o seu ápice, ele se deu conta de que estava, na verdade, tapando o sol que incomodava os olhos mestiços de Carol. Sem grandes causas nem grandes consequências.
Rasgando tudo o que fazia com que se sentisse manual, Max radicalizou. Decidiu que também não queria mais montar quebra cabeças, porque sempre se perdia no meio, ou sempre estava faltando uma peça. As escolhas de Carol haviam feito com que o coração dele endurecesse de tal forma que nenhuma outra peça poderia se encaixar ali.
O mundo perdeu naquele dia uma oportunidade de ser melhor. Porque ao desistir, Max deixava para trás o dom que fora concedido a poucos homens na terra: serem dignos, para formarem outros homens dignos. Ms não era culpa dele... algumas crianças simplesmente escolhem brincar. E ele havia sido o brinquedo da vez.
Foi assim que Max morreu. E todos os jogos terminaram.
PS: eu não gosto de colocar hífen em quebra cabeças. Hífen separa. Já tem tanta coisa separada...
domingo, 21 de outubro de 2012
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Triângulo
Clara já havia esquecido Jorge.
Havia esquecido seu cheiro, seu beijo sem graça, sua voz, os pequenos sentimentos que haviam começado a brotar por ele em seu coração. Mas Clara não podia apagar da memória os momentos...
Ela não podia esquecer aquele primeiro encontro, na noite fria, em que ela usava brincos grandes e ele reparou. Toda encolhida num cantinho da calçada, Clara era naquele momento o foco da observação de Jorge e, mais do que isso, ela era o foco de todos os desejos dele. Então ele a tomou nos braços, bem perto de si e a aqueceu. Primeiramente, de dentro para fora.
Ah! Todos aqueles momentos... os passeios de mãos dadas, as conversas incríveis, as saidas em família, o pique nique noturno com um certo cobertor... as flores, o presente, as cartas. Ela queria manter para sempre a rotina de carinho que tinham um com o outro.
Ah! Todos aqueles momentos... os passeios de mãos dadas, as conversas incríveis, as saidas em família, o pique nique noturno com um certo cobertor... as flores, o presente, as cartas. Ela queria manter para sempre a rotina de carinho que tinham um com o outro.
E ela pensou que sempre seria assim. Até que soube da existência de Paula. Paula, a namorada de Jorge.
E tudo esteve ameaçado dentro de Clara. Mas a forma como Jorge a olhava era tão terna... ela não podia simplesmente apagá-lo. E continuou. Jorge dizia coisas e fazia promessas. Ela só continuou porque os olhos dele pareciam tão sinceros...
Mas no final - porque inevitavelmente chega um final - Jorge telefonou. E foi assim que Clara entendeu qual era seu destino. Aquele destino que ela semrpe negara... Não tinha jeito. Em um mundo justo, Paula seria amada verdadeiramente por outra pessoa e seria feliz, e Jorge estaria livre para cumprir suas promessas para Clara. Mas no mundo real, ela bem sabia, Jorge havia feito sua escolha.
E mesmo que ela nunca entendesse ou aceitasse, teria de conviver para sempre com a certeza de que alguns amores, por maiores que sejam, não foram feitos para dar certo.
Daqui para frente é assim
Porque eu não quero desistir do amor, mas também me cansei de fazer planos.
E a única coisa que vem à cabeça agora é que às vezes as coisas são tão simples... a gente é que complica.
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